Há alguns anos, eu participei de uma live coding com o Jason. A ideia era construir um pequeno editor de código enquanto falávamos sobre WebContainers, aquele tipo de tecnologia que faz você parar por um segundo e pensar: "isso aqui é muito legal."
Em algum momento, a conversa saiu da tecnologia em si e foi para outro lugar: aprendizado, projetos pessoais e por que algumas coisas fazem você querer continuar enquanto outras já parecem pesadas quase de imediato.
No meio disso tudo, eu falei uma coisa sem pensar muito:
Fun is the key.
Não foi planejado. Não era uma frase que eu tinha preparado. Simplesmente saiu.
Mas, olhando para trás, essa frase capturava algo que eu já vinha praticando há muito tempo, mesmo antes de conseguir colocar isso em palavras.
A percepção
Na hora, aquele momento não pareceu especialmente importante. Foi só uma frase no meio de uma live, algo que eu falei e logo deixei para trás.
Mas depois eu continuei voltando nela. Não porque parecia inteligente, mas porque parecia verdadeira.
Quando comecei a prestar atenção, percebi um padrão no meu trabalho e na minha vida. As coisas em que eu mais evoluí, as coisas nas quais eu permaneci e as coisas das quais eu realmente senti orgulho quase sempre tinham uma coisa em comum: elas eram divertidas.
Não necessariamente fáceis e nem sempre empolgantes o tempo todo mas interessantes, instigantes ou significativas o bastante para me fazer querer voltar.
E o contrário também era verdade. Sempre que alguma coisa parecia chata, ou só de pensar nela já vinha um sentimento ruim, o progresso ficava mais lento. Às vezes ele parava por completo.
Foi aí que a frase deixou de ser só algo que eu tinha dito e passou a ser algo em que eu realmente acreditava.
Estamos fazendo isso errado
Eu acho que existe uma forma padrão que muita gente aprende a usar para encarar trabalho e vida: otimizar para resultado.
A gente corre atrás de produtividade, eficiência e entrega. Tenta remover atrito, evitar distrações e fazer tudo o mais rápido possível. E, para ser justo, no papel isso parece certo. Parece maduro. Parece responsável, até.
Mas, no meio desse processo, a experiência de fazer a própria coisa acaba passando despercebida.
Quando tudo vira sobre terminar, quase nada sobra sobre gostar do processo e isso muda completamente a sensação do trabalho. As coisas começam a ficar mais pesadas, as tarefas passam a exigir mais energia do que deveriam, a motivação deixa de ser algo natural e começa a parecer algo que você precisa fabricar à força.
É geralmente aí que a disciplina assume o controle. E disciplina importa.
Eu não sou contra ela mas disciplina sozinha é cara. Se a obrigação é a única coisa te empurrando para frente, então o progresso fica frágil. Você até consegue continuar por um tempo, mas está sempre mais perto de parar do que imagina.
Essa é a parte que eu sempre volto:
Nem tudo que é produtivo é sustentável, e nem tudo que é eficiente é prazeroso.
Se não existe espaço para diversão no que você faz, cedo ou tarde isso cobra um preço.
A mudança
Em algum momento, eu parei de perguntar:
Como eu termino isso?
E passei a perguntar:
Como eu posso tornar isso divertido?
Parece uma mudança pequena e talvez até ingênua mas ela altera a forma como você se relaciona com o trabalho. Você para de enxergar tarefas como coisas para completar e começa a enxergá-las como coisas que você pode moldar. É uma postura completamente diferente.
Às vezes a resposta é simples: transformar em um pequeno desafio, experimentar uma abordagem diferente ou deixar mais bonito, mesmo que ninguém tenha pedido. Em outras, isso significa repensar tudo mas o ponto é que você deixa de ser passivo no processo. Você passa a desenhar ativamente a experiência do que está fazendo.
E, quando isso acontece, o trabalho começa a parecer diferente.
Exemplos reais
Essa ideia só ficou concreta para mim quando eu olhei para as coisas às quais eu sempre voltava.
React95
Eu construí uma interface de Windows 95 para React. Ninguém me pediu isso. Não fazia parte de roadmap nenhum e não resolvia um problema de negócio. Eu fiz porque isso me fazia sorrir.
E justamente porque era divertido, eu permaneci ali. Eu me importei com os detalhes, explorei casos específicos, compartilhei com outras pessoas e em algum ponto no meio disso tudo, eu também estava aprendendo sobre design systems, arquitetura de componentes, packaging e developer experience.
O que começou como um projeto pessoal engraçado acabou moldando uma parte importante da minha carreira.
Relógios
Eu também personalizo relógios com a minha própria identidade: meu logo, "GG", e a frase "Fun is the Key."
Olhando de longe, isso parece um hobby totalmente diferente mas o impulso por trás dele é o mesmo. Não é só sobre o objeto. É sobre pegar algo padrão e torná-lo pessoal, transformar aquilo em algo com que eu me conecto toda vez que olho.

Pixel art com miçangas
A mesma coisa acontece com pixel art e miçangas. É uma atividade que pode parecer repetitiva mas, quando a curiosidade entra em cena, a repetição muda de sentido. Você não está só encaixando peças, está transformando pixel art em algo físico, e isso muda a experiência inteira.

Domínios diferentes, mesmo padrão
Se é divertido, eu vou mais fundo. E, se eu vou mais fundo, eu fico melhor.
Diversão como combustível
Diversão muda a equação.
Quando alguma coisa é divertida, você começa mais rápido, permanece por mais tempo, vai mais fundo e se importa mais com o que está fazendo.
Você não precisa depender só de disciplina, porque o embalo começa a se construir sozinho e com o tempo essa consistência vai se acumulando.
É por isso que eu não vejo diversão como distração.
Eu vejo como combustível.
A parte difícil
Nem tudo vai ser divertido. Existem partes chatas, tarefas repetitivas e coisas que simplesmente precisam ser feitas.
O React95 é um bom exemplo disso. Ele não nasceu de uma tarde livre e inspirada. Nasceu de um problema real onde a empresa em que eu trabalhava precisava de um design system, e eu não fazia a menor ideia de como construir um.
Eu poderia ter encarado aquilo como uma tarefa complicada e, honestamente, era isso mesmo. Mas, em vez de tentar me forçar a aprender da forma mais direta e eficiente possível, eu me perguntei: como eu posso tornar isso legal?
A resposta foi uma interface de Windows 95. Ridícula? Talvez. Mas foi o que me fez querer pesquisar, experimentar e entender de verdade como aquilo funcionava.
O problema não sumiu. O esforço não diminuiu. O que mudou foi a minha relação com ele.
Diversão não é sobre evitar esforço. É sobre mudar a sua relação com ele.
Fechando
Então, em vez de perguntar:
Isso é produtivo?
Isso é eficiente?
Tente perguntar:
Onde está a diversão nisso?
E, se ela não estiver lá:
Como eu posso trazer ela para cá?
Porque, no fim, as coisas nas quais você permanece...
As coisas nas quais você fica bom...
As coisas que você realmente gosta de fazer...
Elas quase sempre têm algo em comum.
Fun is the key.