Você já parou pra pensar em quantos serviços guardam seus dados? Google Photos com suas fotos, Google Drive com seus documentos. Funciona, ninguém discorda. Mas me incomoda que esses serviços cobram pelo armazenamento de coisas que já são suas. E pior: nos últimos anos, cada vez mais empresas vendem o direito de acesso ao invés de propriedade. Você não é dono, é inquilino.
Eu queria mudar isso. Queria meus arquivos rodando dentro da minha casa, no meu hardware. E consegui fazer tudo com um Raspberry Pi 4.

O que eu queria
Uma alternativa ao Google Photos pras minhas fotos. Um Drive próprio pra meus documentos. Um sistema que fizesse OCR nos meus PDFs e contratos pra eu poder buscar por conteúdo. E um bloqueador de anúncios na rede inteira, porque não?
Parece muita coisa pra um computador do tamanho de um cartão de crédito. E é. Mas roda.
O hardware
| Componente | Função |
|---|---|
| Raspberry Pi 4 (8 GB) | Servidor |
| MicroSD 128 GB | Sistema + Apps |
| SSD 128 GB (USB) | Dados |
| Fonte oficial Raspberry Pi | Alimentação |
Uma coisa que aprendi da pior forma possível: separe o sistema dos dados. O MicroSD fica com o sistema operacional e as aplicações, o SSD fica com tudo que importa (fotos, documentos, bancos de dados). Se o sistema corromper, é só gravar uma nova imagem. Os dados ficam intactos.
A saga do cartão falsificado
Antes de chegar nesse setup, perdi dias debugando um problema que parecia ser de software.
O cartão MicroSD que eu usava dizia ter 256 GB. Na verdade, tinha 8 GB. Sim, falsificado. O sistema cabia nos 8 GB reais, então tudo funcionava. Instalei o CasaOS, o Pi-Hole, tranquilo. Quando instalei o NextCloud e comecei a subir arquivos, os dados ultrapassaram os 8 GB e o cartão começou a sobrescrever dados do sistema, silenciosamente.
O resultado: binários do Docker corrompidos, banco de dados destruído, kernel panics. Eu reinstalava, funcionava por um tempo, corrompia de novo. Achei que era o NextCloud, achei que era o Docker, achei que era o sistema de arquivos. Era o cartão.
Uma ferramenta chamada f3probe acabou com
o mistério:
Bad news: The device is a counterfeit of type limboUsable size: 7.95 GBAnnounced size: 256.00 GBSe você compra cartões SD pela internet, teste antes de usar. Sério.
A arquitetura

Tudo roda em cima do CasaOS, que é basicamente uma interface web para gerenciar containers Docker. Você instala aplicações por uma loja parecida com a de um celular. Cada serviço fica em seu próprio container e os dados de todos vão pro SSD.
Os serviços
Pi-Hole
O Pi-Hole bloqueia anúncios no nível de DNS. Configurei meu roteador pra usar o Pi como DNS primário e pronto: celulares, TVs, computadores, tudo passou a ter anúncios bloqueados. Sem instalar nada em cada dispositivo.
NextCloud
O NextCloud virou meu Drive. Acesso pelo browser, sincronizo pastas do celular, compartilho links quando preciso. Os arquivos ficam no SSD, dentro de casa.

Immich
O Immich é o substituto do Google Photos. Faz backup automático das fotos do celular, organiza por data, reconhece rostos e faz busca por conteúdo. A interface é muito parecida com a do Google Photos, o que ajuda na transição. Tenho uns 24 GB de fotos e vídeos rodando nele sem problemas.

Paperless-ngx
O Paperless-ngx talvez seja o mais legal de todos. Você joga documentos nele (PDFs, fotos de recibos, contratos) e ele faz OCR, indexa tudo e permite busca por conteúdo. Joguei mais de 500 documentos e agora acho qualquer contrato pesquisando por uma palavra.
Tailscale
O Tailscale cria uma VPN entre meus dispositivos. Com ele acesso tudo de qualquer lugar, como se estivesse em casa. Sem abrir portas no roteador.
Portainer
O Portainer é a dashboard de monitoramento. Mostra logs, status e uso de recursos de todos os containers. Quando algo quebra (e quebra), é a primeira coisa que eu abro.
O protetor de tela acidental
O Pi tem uma telinha conectada. Pequena, mas suficiente pra mostrar alguma coisa. No começo ficava ali desligada, sem uso. Aí pensei: já que o Immich tem todas as minhas fotos, por que não rodar uma apresentação nelas?
Montei um script que puxa fotos aleatórias e exibe em tela cheia, tipo um slideshow. Depois, com o que aprendi no projeto do Alexo, descobri como fazer o script rodar automaticamente quando o Pi liga. Quando o Pi fica ocioso, a apresentação dispara sozinha, como um protetor de tela.
Agora tenho um porta-retrato digital no canto da mesa o dia inteiro, com minhas próprias fotos. Não estava no plano original, mas acabou sendo a parte que mais gosto do setup.
O que aprendi
Teste seu hardware. Eu gastei dias achando que o problema era software quando o cart ão SD era falso.
Não puxe o cabo da tomada. Desligue o Pi pelo sistema. Cortar energia num Linux com cartão SD é pedir pra corromper alguma coisa.
Comece devagar. Instale um serviço por vez, teste, e só depois vá pro próximo. A tentação de instalar tudo de uma vez é grande, mas quando dá problema você não sabe o que quebrou o quê.
E uma coisa que eu não esperava: cada problema que eu resolvia me dava vontade de
resolver o próximo. O cartão falso me ensinou a testar hardware. O boot que
travou me ensinou sobre fstab. O container que não subia me fez entender como
Docker monta volumes. Nenhuma dessas coisas estava no plano quando comecei. Eu
só queria guardar umas fotos.
Acabou que o homelab virou um hobby por si só. Gosto do processo de montar, quebrar, consertar e ir melhorando.
Vale a pena?
Depende do que te motiva. Se você quer algo que funciona sem pensar, paga o Google One e segue a vida. Não tem vergonha nisso.
Agora, se te incomoda que suas fotos, documentos e dados pessoais moram em servidores de empresas que podem mudar os termos quando quiserem, um homelab resolve isso. Dá trabalho? Sim. Coisas quebram, containers travam, cartões SD corrompem. Mas no final do dia, é tudo seu.