Semana passada eu estava pensando em uns projetos antigos e comecei a ligar uns pontos. Homelab, React95, as fontes do Windows 95. Coisas que sempre tratei como hobbies separados, cada um com sua própria desculpa.
Só que, olhando de fora, dá pra ver um padrão. Não é coincidência eu ter
montado um Raspberry Pi pra guardar minhas próprias fotos e também ter perdido
mais horas do que eu pretendo admitir extraindo fontes de um arquivo .FON
de 1987. As duas coisas
vêm do mesmo lugar.
Isso se chama indie web.
O que é isso
Eu não cheguei nesse nome sozinho. Foi um amigo que me apresentou o termo, junto com um vídeo que circulou bastante por aí, o A Web Revival: the internet didn’t die, you’re just not on it.
O título já entrega o argumento. Aquela sensação de que a internet morreu, de que virou só feed, anúncio e conteúdo gerado em escala industrial, não é paranoia. Mas ela descreve uma internet específica, a das plataformas. Enquanto isso, existe uma web paralela de sites pessoais, feitos à mão, com guestbook, webring e cara de anos 2000, que nunca deixou de existir. Ela só não aparece pra você porque não tem algoritmo interessado em te levar até lá.
A ideia da indie web é essa. Ser dono do que você publica e de onde publica, em vez de alugar espaço numa plataforma que pode mudar as regras da noite pro dia. Tem gente que leva isso muito a sério, com protocolos e padrões próprios organizados no IndieWeb.org. E tem a versão mais solta, de quem só quer ter seu cantinho na internet pra fazer dele o que quiser. Eu tô mais nesse segundo grupo.
Do jeito que eu vivo isso, são duas partes. Ter o controle sobre o que é meu, e fazer tudo com personalidade, com um site que tem a minha cara em vez da cara de um template.
A parte de ter o controle
Esse lado eu já documentei num post inteiro. Montei um Raspberry Pi 4 em casa pra parar de pagar aluguel por coisas que já são minhas. Fotos no Immich, documentos no Paperless-ngx, Drive no NextCloud. Nada revolucionário, mas resolve um incômodo bem específico. Eu não sou dono de nada que fica guardado num servidor de empresa que pode mudar os termos quando bem entender.

Esse blog segue a mesma lógica, só que em menor escala. Fica no meu domínio,
build estático, sem depender de uma plataforma de terceiros pra existir. Os
posts são arquivos .mdx direto no repositório, não vivem em nenhum serviço
de terceiros. Os comentários usam o Giscus, que guarda tudo em
Discussions de um repositório meu,
então nem essa parte eu terceirizo pra uma caixinha de comentário genérica.
Tem uma exceção. Recentemente coloquei um chat ao vivo aqui no blog usando Firebase. É Google, é de terceiro, é tudo que eu acabei de descrever contra. Coloquei mesmo assim porque resolvia um problema real e eu não tinha vontade de montar um servidor de WebSocket só pra isso. Contradição? Talvez. Mas foi uma troca que eu fiz sabendo o preço.
A parte de ser divertido
Essa é a parte que quase ninguém comenta, mas que pra mim pesa tanto quanto a primeira.
Fazer as coisas com personalidade é também resistir a um tipo de padronização. A internet ficou cheia de sites que se parecem entre si, porque saíram do mesmo template, do mesmo design system, da mesma paleta de cores “segura”. Um site esquisito, com a cara de quem fez, é uma forma de dizer “isso aqui sou eu” numa internet que empurra todo mundo pra parecer igual.
Foi basicamente isso que eu já descrevi no post Fun is the key. As coisas em que eu mais evoluí quase sempre eram divertidas antes de serem produtivas. O React95 é o exemplo mais claro. Virou uma interface inteira de Windows 95 pro React porque foi a forma que eu encontrei de aprender design system sem me entediar no processo. Não resolveu nenhum problema de negócio direto. Resolveu o problema de eu continuar interessado o suficiente pra aprender.

E foi tão longe que, anos depois, eu estava extraindo fontes bitmap de 1987 de
dentro de arquivos .FON só porque a fonte “parecida” com a MS Sans Serif não
era pixel perfect o suficiente. Ninguém precisava
disso. Eu queria que estivesse certo, não
só parecido.
O ponto de encontro
Ter controle sem ter personalidade vira só um servidor em casa rodando serviço genérico. Ter personalidade sem controle vira um perfil bonito numa plataforma que não é sua e que pode sumir amanhã.
As duas coisas juntas é que fazem sentido pra mim. Um espaço que é meu, onde eu decido a infraestrutura e decido a cara. O homelab guarda o que é meu. O blog publica o que eu quero, do jeito que eu quero, com a fonte certa se eu quiser gastar um fim de semana com isso.
Não é sobre seguir uma lista de protocolos. É sobre não deixar que outra pessoa decida como e onde eu existo na internet.
Fun is the key, de novo. Só que dessa vez, aplicado à própria internet.